Campeonato Paulista

Publico aqui uma reportagem especial que produzi para uma disciplina da faculdade de Jornalismo sobre o título paulista de 1973,  na ocasião do aniversário de 93 anos do clube,com entrevistas de jogadores, cronistas e torcedores da época…

No início da década de 1970, os grandes clubes do futebol paulista atravessavam um período de transformações. Palmeiras e Santos detinham os melhores times do país, se revezavam nas conquistas do Campeonato Paulista e despontavam como forças nacionais no ainda embrionário Campeonato Brasileiro. São Paulo e Corinthians, outras forças incontestáveis, estavam mergulhados em crises e jejuns, respectivamente. Enquanto isso, no Canindé, a Portuguesa inaugurava seu novo estádio. Com ele, um dos maiores clubes sociais da capital e, em campo, uma equipe disposta a fazer história.

O São Paulo vinha de uma grave crise financeira decorrente da construção do Morumbi, totalmente concluído em 1970. O Corinthians amargava um jejum de mais de 10 anos sem conquistar títulos, o último deles sendo o da comemoração do quarto centenário da capital paulista. O Palmeiras desfilava em campo com sua segunda Academia de Futebol, capitaneada por Dudu e Ademir da Guia. Já o Santos via seu maior ídolo, Pelé, próximo do fim de carreira. Com o rei do futebol, a equipe de Vila Belmiro conquistava quase todos os Campeonatos Paulistas, sendo batida apenas pelo Palmeiras em algumas temporadas.

No Canindé, a colônia portuguesa se mobilizava na construção de um clube social mais moderno e de um estádio que abrigasse sua torcida. Oswaldo Teixeira Duarte, um dos lendários cartolas do futebol paulistano, presidente eleito em 1970, queria reafirmar a Portuguesa como um dos clubes grandes de São Paulo. Para tanto, a construção do então estádio Independência, hoje Canindé, totalmente custeada pela coletividade lusa, não bastava. Na cabeça do mandatário lusitano, era preciso montar um time forte que voltasse a conquistar títulos de destaque, algo que não acontecia desde o Torneio Rio-São Paulo de 1955.

A colônia portuguesa queria mostrar a sua força e impedir que, com a Lusa, acontecesse o mesmo que ocorria com o rival São Paulo. Uma crise financeira após a inauguração de seu complexo esportivo. Portanto, a comunidade lusitana se empenhou para que o clube tivesse condições econômicas de montar uma equipe forte. Em 1972, após a inauguração de seu estádio, esse desejo lusitano pela formação de um time competitivo e da busca de um título de destaque ficaram evidentes.

Enquanto disputava o Campeonato Brasileiro deste ano, em sua segunda edição, a Portuguesa foi derrotada pelo Santa Cruz por 1 a 0, em partida extraordinariamente realizada no Parque Antártica. O presidente Oswaldo Teixeira Duarte, furioso com a campanha decepcionante do time mesmo após tantos investimentos, resolveu demitir seis de seus mais renomados jogadores. Durante a madrugada, o mandatário luso mandou embora Hector Silva, Marinho Perez, Piau, Lorico, Samarone e Ratinho. Tal acontecimento ficou marcado como “A Noite do Galo Bravo”, em referência ao presidente que hoje dá nome ao estádio do Canindé.

Imediatamente, o técnico luso foi convocado a formular uma nova lista de jogadores para que a Portuguesa contratasse a fim de se reforçar para a temporada de 1973. Badeco, volante nascido em Joinville, destaque do América-RJ, foi a primeira e a mais importante contratação. “Quem me trouxe para a Portuguesa foi o Cilinho, então técnico do time. Realizei um sonho, pois eu via Lorico e Paes jogarem pela Lusa e ficava entusiasmado. Para minha felicidade, eu vinha a São Paulo não para jogar ao lado do Lorico, mas, por surpresa minha, para substituí-lo”, diz Badeco, hoje diretor da Associação Craques de Sempre.

A Portuguesa entrava no ano de 1973 com um plantel forte, porém, um tanto desconhecido. Um time formado a partir de uma mescla entre atletas mais veteranos e jovens revelações, tanto das categorias de base da Lusa quanto do interior paulista. A Rubro-Verde voltava a dar atenção à formação de atletas, algo que sempre a caracterizou. No gol, Zecão foi contratado junto ao São Bento e Miguel vinha do Juventus. Nas laterais, Cardoso e Isidoro eram pratas da casa e disputavam posição com o experiente Humberto Monteiro, campeão brasileiro pelo Atlético-MG em 1971, e com Santos, revelado pela Ponte Preta.

No miolo de zaga, Pescuma chegava do Coritiba e Calegari vinha do Botafogo de Ribeirão Preto. Raimundo era o reserva imediato, jogador desconhecido vindo de Sergipe. O volante era Badeco, o líder do time. Na meia, o já ídolo pontepretano Dicá, que atuava ao lado de Basílio, revelação da base lusa, o mesmo que seria imortalizado vestindo a camisa corinthiana. Na frente, Xaxá vinha como destaque da Portuguesa Santista e jogava ao lado dos pontas da base, como Luis Lima e Wilsinho, sem contar com Da Costa, oriundo do Ceará.

O poder de fogo da Portuguesa era composto por Tatá, destaque do Londrina, Cabinho, revelação do América de Rio Preto, Luisinho, que despontou no São Bento, Helinho, que ganhou visibilidade na Ponte Preta, e Feitosa, formado na Lusa. Ao se falar do ataque lusitano naquele ano, não se pode deixar de citar uma das maiores revelações das categorias de base da Portuguesa, um dos maiores ídolos do clube, Enéas. Todos comandados por Cilinho, à época um dos treinadores de ponta do futebol nacional.

“O Cilinho tinha um grande conhecimento tático e técnico, era um excelente treinador, podemos ver pela campanha que ele fez no São Paulo”, conta Badeco. A Portuguesa estreou no Campeonato Paulista daquele ano com uma vitória por um a zero sobre o São Bento, no Canindé, com gol de Tatá. Na segunda rodada, a Lusa teria um clássico contra o Corinthians. No Morumbi, a Rubro-Verde acabou derrotada pela equipe de Parque São Jorge por um a zero. A torcida lusitana ficou descontente com o futebol apresentado pela Portuguesa e a pressão sobre Cilinho aumentaria na partida seguinte.

A Lusa receberia a Ferroviária no Canindé e o treinador contrariou a torcida antes mesmo de o jogo começar. “O Cilinho quis botar o Cardoso de ponta direita porque o Xaxá não estava fazendo aquilo que ele queria. Só que o Xaxá era o menino de ouro da Portuguesa. Eu falei para o Cilinho não fazer aquilo, mas ele não me atendeu”, relembra o ex-capitão Badeco.

Antônio Quintal, profundo conhecedor da história da Portuguesa e comentarista da Equipe Líder, grupo esportivo de rádio que cobre a Lusa desde 1972, explica como foi o jogo. “A Lusa abriu uma vantagem de dois gols no primeiro tempo com Cardoso e Helinho, mas depois cedeu o empate na fase final. Os mais de sete mil torcedores presentes ficaram enfurecidos e pediram a saída de Cilinho, que teve de deixar o estádio escoltado”, conta o comentarista.

Badeco desempenhou um importante papel na escolha do novo treinador. “Como eu já tinha trabalhado com o Otto Glória no América-RJ, eu falei para o Dr. Oswaldo Teixeira Duarte que ele seria o homem ideal. Ele já vinha de Portugal, treinou a seleção lusa na Copa do Mundo de 1966, era um cara que já conhecia a colônia portuguesa”, conta o ex-jogador.

“A estréia do Otto como técnico da Lusa aconteceu contra o Guarani pela quarta rodada do Paulista. A Portuguesa acabou sofrendo um empate por dois a dois no último minuto de jogo. O Canindé recebeu mais de doze mil pessoas naquele dia. O Otto só teve tempo de mexer no time após o final do primeiro turno, quando começou a Taça São Paulo”, detalha Antônio Quintal, comentarista esportivo da Rádio Tupi de São Paulo, conhecido no Canindé como ‘enciclopédia viva’ da história da Lusa.

Calegari, um dos destaques da Portuguesa naquele ano e que hoje está aposentado, vivendo em Ribeirão Preto, afirma que considerava Cilinho um técnico qualificado, mas que Otto foi o maior treinador que teve em sua carreira. “Eu acho que o Cilinho era um homem fantástico para armar um time taticamente, mas o Otto marcou demais a minha carreira. Para mim, ele foi um dos treinadores mais completos. Além de conhecer profundamente o futebol dentro de campo, era capaz de mudar um jogo com apenas duas palavras nos vestiários”, conta o ex-zagueiro.

O primeiro turno do Campeonato Paulista de 1973 foi vencido pelo Santos de Pelé. Otto Glória usou o intervalo que teve até o segundo turno para promover uma verdadeira revolução tática na equipe. Os frutos do trabalho de Otto começaram a aparecer na Taça São Paulo, torneio revivido por Paulo Machado de Carvalho e que aconteceu exatamente nesse período entre os turnos do Campeonato Paulista. A Portuguesa ficou no grupo da capital, ao lado de Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Juventus.

“O Otto mudou a postura tática da equipe, que passou a jogar com duas linhas de quatro. A primeira com o lateral-direito Cardoso, o central Pescuma, o quarto-zagueiro Calegari e o lateral-esquerdo Isidoro. Os laterais quase não apoiavam. Na frente da defesa, ele montou uma linha que tinha Xaxá, Cardoso, Badeco e Basílio postados à frente dos zagueiros de área e Wilsinho na frente de Isidoro pela esquerda. No ataque, Enéas e Cabinho”, explica Antônio Quintal.

Calegari analisa qual foi o grande diferencial da Portuguesa dali para frente. “Com essa formatação tática, o Otto tirava os espaços do ataque dos adversários, que não estavam acostumados a enfrentar esse tipo de marcação. Foi assim que a Portuguesa se preparou para jogar a Taça São Paulo. O Otto foi muito criticado por boa parte da imprensa, que não gostava de ver a Portuguesa jogando fechada e buscando contra-ataques”, relembra o ex-jogador.

A Lusa chegou à final da Taça São Paulo sem sofrer sequer um gol. Foram cinco vitórias e dois empates. Na primeira fase, a Portuguesa venceu o São Paulo (2×0) e o Corinthians (1×0), empatando com Palmeiras (0×0) e Juventus (0×0). Na semifinal, a Lusa venceu a Ferroviária pelo mesmo placar em dois jogos (1×0). Na final, a Portuguesa derrotou a Academia de Futebol do Palmeiras comandada por Ademir da Guia por três a zero, com dois gols de Wilsinho e um de Enéas. A torcida da Portuguesa foi maioria no Pacaembu e, a partir dali, começava a arrancada rumo ao título do Campeonato Paulista.

No final de semana seguinte à final da Taça São Paulo, teve início o segundo turno do certame estadual. O time de Otto Glória voltava a surpreender a todos com uma defesa muito bem postada. Foram apenas três gols sofridos durante o turno inteiro. Esses três gols aconteceram justamente nos três primeiros jogos. A Lusa estreou vencendo o São Bento por dois a um, com gols de Basílio. Depois empatou por um a um no clássico contra o São Paulo, no Pacaembu. O terceiro adversário e último a conseguir balançar as redes lusitanas na competição foi o Guarani, em uma partida que terminou em um a um em Campinas.

No clássico contra o Palmeiras, em clima de revanche pela final da Taça São Paulo, a Portuguesa não deu chances à Academia de Futebol e venceu por dois a zero. A Lusa ainda venceria o América de Rio Preto por dois a zero, com gols de Basílio, e empataria com a Ferroviária por zero a zero, em Araraquara. O clássico contra o Santos, campeão do primeiro turno, teve direito a 45 mil pagantes no Pacaembu. Segundo o aposentado Irineu Moreira, torcedor luso de 73 anos, “a torcida da Portuguesa dividiu o Pacaembu com a torcida do Santos”. A Lusa venceu o clássico por um a zero, com gol de Tatá.

O Juventus, eterno carrasco da Lusa, era o próximo adversário. Porém, até mesmo o Moleque Travesso, que jogava da mesma forma que a Portuguesa, perdeu o confronto, desta vez por dois a zero. O último clássico seria contra o Corinthians. Com 31 mil pagantes no Morumbi, a Lusa não deu chances à equipe de Parque São Jorge e, com gols de Enéas e Luisinho, venceu por dois a zero. Segundo o lusitano Irineu Moreira, “uma das partidas inesquecíveis daquele campeonato foi contra o Botafogo no Pacaembu, com mais de 15 mil torcedores”.

A Lusa acabou vencendo o Tricolor de Ribeirão Preto por dois a zero, com um gol contra do zagueiro Manoel e outro do oportunista Lusinho. A última partida do segundo turno foi contra a Ponte Preta, uma igualdade sem gols que já selava o passaporte luso rumo à final daquele Campeonato Paulista. Santos, campeão do primeiro turno, e Portuguesa, campeã do segundo turno. No dia 26 de agosto de 1973, o Morumbi registrava um recorde de público à época. “Havia 116 mil pagantes naquela final e eu era um deles”, afirma Antônio Quintal.

“Hoje, quando falamos, as pessoas não acreditam, mas naquele dia a torcida da Portuguesa dividiu o Morumbi com os santistas. Estava meio a meio. Uma cena linda de se ver”, conta emocionado o comentarista esportivo. A Portuguesa de Otto Glória foi a campo com Zecão; Cardoso, Pescuma, Calegari e Isidoro; Badeco e Basilio; Xaxá, Enéas, Cabinho e Wilsinho. O Santos do técnico Pepe era formado por Cejas, Carlos Alberto, Vicente, Turcão e Zé Carlos; Clodoaldo e Léo; Jair da Costa, Eusébio, Pelé e Edu.

“Aquele Santos já não era o mesmo de Durval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, mas ainda assim era o Santos de Pelé. O Cejas era um baita goleiro, tínhamos o Carlos Alberto Torres, o Clodoaldo e o Léo, craques indiscutíveis. Sem falar do Jair da Costa, que foi até revelado pela Portuguesa, campeão europeu pela Inter de Milão. E na frente, do lado do Pelé, tinha o Edu. Era um timaço. Ao lado do Palmeiras era o melhor time daquele ano, mas a Portuguesa sempre foi a Portuguesa”, conta Amândio Novaes, aposentado de 71 anos, torcedor santista que esteve naquela final.

Calegari segue a linha do torcedor santista ao falar de Pelé, mesmo no final de carreira. “Nós tínhamos um time bom, um time mais jovem que o do Santos. Mas eles tinham o Pelé. Mesmo em final de carreira, o Pelé era o Pelé, ele sempre foi o rei”, afirma o ex-jogador. Na final, a Portuguesa manteve seu esquema característico, fechando-se na defesa sem dar espaços para o Santos atacar. A Lusa explorava os contra-golpes com a velocidade de Cabinho e a qualidade do goleador Enéas.

“Durante o jogo, o Santos foi muito mais ofensivo e mandou três bolas na trave do Zecão”, conta Antônio Quintal. “Eles tinham um time forte, principalmente no ataque, mas nós tínhamos uma defesa que não dava espaço. Ninguém conseguia vazar o Zecão. Claro que teve momentos em que tomamos sufoco, mas mesmo assim ainda tivemos o lance do Cabinho e o do Basílio no final do jogo”, relembra o luso Irineu Moreira.

A final entre Portuguesa e Santos ficou marcada na história como uma partida muito disputada, onde o Peixe teve mais chances de vencer o jogo e onde a inteligência de Otto Glória decidiu o título. Porém, o erro do árbitro Armando Marques nas cobranças de pênaltis apagou da história um lance que a torcida da Portuguesa ainda se lembra muito bem. “Perto dos 37 minutos do segundo tempo, o Cabinho marcou um gol. Ele se aproveitou de uma bola vinda da defesa do Santos e foi pra rede. Só que o Armando Marques anulou, sabe-se lá por que”, explica Antônio Quintal.

“O Vicente, quarto-zagueiro do Santos, foi dominar a bola no peito, ela escapou, o Cabinho tinha um arranque fantástico, partiu, pegou a bola, driblou o Cejas [goleiro santista] e fez o gol. O [Dulcídio Vanderlei] Bosquilha era o bandeira e ele correu para o centro do campo. O Armando Marques anulou o gol”, relembra o ex-jogador Calegari.

A partida foi para a prorrogação, com dois tempos de quinze minutos, mas o placar seguiu intacto. A Lusa se aproveitou da juventude do seu time pra equilibrar as ações e criar algumas boas chances. “No último lance o Basílio teve a chance de nos dar o título. Da entrada da área, sozinho, ele falhou demais na finalização. Aquele seria o gol do título, ele pegou muito fraco na bola”, conta o lusitano Irineu. “Eu acho que nós podíamos ter decidido o jogo no último minuto da prorrogação com o Basílio, mas ele estava com o pé torcido e perdeu o gol”, concorda o ex-jogador Calegari.

A decisão ficou para as cobranças de pênaltis. Zé Carlos, do Santos, foi o primeiro a cobrar. Zecão defendeu no canto esquerdo. Isidoro foi para a cobrança, mas perdeu. Carlos Alberto Torres, perito em penalidades máximas, converteu. Calegari, zagueiro luso, chutou para fora. Edu era o próximo a bater, foi para a bola e fez. A Portuguesa perdeu o terceiro pênalti. Três penalidades haviam sido batidas para cada lado. O Santos havia convertido duas, enquanto a Lusa não tinha marcado nenhum gol. Porém, caso a equipe de Vila Belmiro perdesse suas duas próximas cobranças e a Rubro-Verde as convertesse, haveria empate e a disputa seguiria.

No entanto, o árbitro Armando Marques encerrou a final precipitadamente, decretando o Santos campeão. “No momento, poucos perceberam. Eu estava ao lado do meu pai na arquibancada contrária ao gol onde as penalidades foram cobradas. Meu pai logo se revoltou dizendo que a Portuguesa ainda tinha chance de empatar”, conta Antônio Quintal. “Na nossa torcida, alguns perceberam que havia algo errado. Eu mesmo, sinceramente, com o desespero pelo terceiro pênalti perdido, nem percebi. Depois, me acalmando, vi que o Armando Marques tinha nos prejudicado”, conta o torcedor Irineu Moreira.

“As penalidades foram batidas no gol de entrada do Morumbi, a torcida do Santos ficou do lado esquerdo e a da Portuguesa do lado direito. Quando nós erramos o terceiro pênalti, o Cejas [goleiro santista] pegou a bola, correu em direção à torcida santista e jogou a bola pro alto. A torcida se inflamou e o Armando Marques foi na onda”, relembra o capitão Badeco.

Constatado o erro de direito da arbitragem, o presidente da Federação Paulista de Futebol, José Ermírio de Moraes Filho, preocupado com o ocorrido, tentou restabelecer a ordem. O árbitro Armando Marques queria que os jogadores voltassem ao gramado para que as cobranças fossem completadas. O presidente da Portuguesa, Oswaldo Teixeira Duarte, não concordou. Além disso, o presidente luso dizia aos quatro cantos que iria entrar com um recurso junto ao Tribunal de Justiça Desportiva, solicitando a anulação da partida.

“Quando nós fomos saindo do gramado, o Otto Glória começou a gritar para que a gente fosse rápido, que a gente fosse depressa para os vestiários. Eu não estava entendendo. Eu ainda não estava com a lucidez necessária para saber que ainda podíamos igualar as penalidades. Quando eu cheguei no final do túnel do Morumbi, eu percebi que realmente a gente precisava sair do estádio rápido para que não voltassem as penalidades. Ainda demorou um bom tempo para o pessoal perceber aquilo tudo. Alguns jogadores foram embora até sem tomar banho. Já não era negócio voltarmos para bater os pênaltis”, afirma o ex-capitão Badeco.

A Federação Paulista de Futebol, sabedora de que isso seria mais um problema para ser resolvido, reuniu-se com os dois presidentes, Oswaldo Teixeira Duarte e Vasco José Faé, e juntos optaram pela divisão do título. A Portuguesa se comprometeu a não entrar com o recurso nos órgãos competentes. De forma rápida cogitou-se realizar uma nova partida, só que não havia datas para isso, pois o Campeonato Brasileiro daquele ano seria iniciado depois de três dias. Vale lembrar que na quarta-feira seguinte, a Portuguesa estrearia contra o Remo, em Belém.

“Os torcedores do Santos que comemoravam o título se inibiram com a proclamação dos dois clubes campeões e praticamente interromperam a festa. Enquanto isso, a torcida lusa timidamente iniciou a comemoração que brevemente parou. Na verdade, a torcida da Portuguesa queria sentir o gosto de ver a Lusa ganhar o campeonato sozinha. Ficou claro que ninguém gosta de ver titulo dividido. Isso ficou bem claro”, ressalta o comentarista Antônio Quintal, que esteve presente no Morumbi.

Calegari e Badeco concordam que o título dividido não teve o mesmo gosto de uma conquista isolada. Porém, ambos destacam que nada além do título, mesmo que desta maneira, seria capaz de coroar merecidamente a campanha da Portuguesa. A revolta pela má arbitragem de Armando Marques, à época considerado o principal árbitro do futebol brasileiro, ficou para ambos os lados. Os santistas pelo erro na contagem dos pênaltis. Os lusitanos pela anulação do gol legítimo de Cabinho.

“Lembro que ao sair do estádio do Morumbi, naquela noite chuvosa, um torcedor da Portuguesa me disse o seguinte: “dois campeões não dá, é a mesma coisa que dois caras namorarem a mesma mulher”. Acho que ele tinha razão, nenhuma das partes sente felicidade dividindo um sonho. Nem lusos, nem santistas ficaram felizes com a proclamação de dois campeões”, sintetiza Antônio Quintal.

Por Luiz Nascimento

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Uma resposta para Campeonato Paulista

  1. agnaldo disse:

    parabéns por trazer a tona um grande capítulo do verdadeiro futebol brasileiro

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